“Campo Alegre, no município de Turmalina, integrante do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, é uma localidade onde grande número de mulheres produz uma cerâmica de feições extremamente particulares, que expressa muito de sua sensibilidade e herança cultural. Na época de suas mães e avós, os objetos confeccionados eram aqueles necessários à lida diária, como potes e moringas para armazenar água, panelas, pratos e tigelas para preparar e guardar os alimentos. Com a incorporação de utensílios industrializados e a abertura de mercados fora do âmbito regional, a utilidade passou para segundo plano, vindo à tona o seu valor decorativo, as suas características estéticas e culturais.
A cerâmica de Campo Alegre incorpora as influências recebidas numa constante renovação de modelos, que são, por sua vez, adaptados dos que foram herdados. Em seu conjunto, a produção local se compõe de uma variedade de formas e soluções que, embora individuais, seguem padrões comuns. Vasos, potes e vasilhas de cunho mais tradicional confundem-se com bonecas, animais e moringas antropoformas. A farta decoração é inspirada na flora local e desenhada com tonalidades terrosas. As diferentes colorações são obtidas de barros diversos, que, tratados conforme técnicas tradicionais, produzem os tons que vão do branco ao ocre e marrom avermelhado.
Além de expressar padrões estéticos e sensibilidades particulares, há um rico conhecimento tecnológico embutido na peça, que envolve a identificação do barro apropriado, o seu tratamento até se transformar na pasta com a plasticidade ideal, a modelagem propriamente dita, a secagem, a decoração e a queima, que vai torná-la resistente e impermeável. Como as técnicas de produção de cerâmica eram dominadas tanto pelos nativos da terra como pelos colonizadores portugueses e pelos povos africanos escravizados, foi provavelmente a combinação de conhecimentos de todos eles que se materializou no saber dos atuais habitantes de Campo Alegre.
Essa cerâmica carrega em si um pouco de cada um de nós. Ela é um dos muitos símbolos que remetem à constituição do povo brasileiro, étnica e culturalmente heterogêneo. O dinamismo da sua estética exprime as adaptações e as transformações inerentes ao passar do tempo. Além desses atributos de ordem cultural e ideológica, esses objetos são veículos de melhoria das condições de vida para as artesãs que os produzem e suas famílias. Com a sua venda e valorização as comunidades produtoras obtêm benefícios materiais e também conquistas de outra ordem, como um incremento do amor-próprio das pessoas. No eixo desse processo estão as ceramistas, cujo trabalho torna-se valorizado como expressão de uma dada tradição aliada à criatividade individual.”

[Fonte: ArteSol]

 

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.