Apresentação

No final do século XIX os pequenos mercados locais dão lugar a mercados nacionais e a modernização da estrutura de transportes e comunicação começa a interligá-los em escala mundial. Surgem nesta época as grandes marcas e as lojas de departamento: fazer compras torna-se um divertimento ao alcance das massas. Na segunda metade do século XX, no pós-guerra, acelera-se o processo de globalização; os grandes centros com Milão, NY, Londres e Paris, irradiam as tendências da moda e do design para todos os cantos do mundo. A cultura de massas começa a se associar a critérios individuais, a satisfação corporal e estética torna-se uma paixão e passa a criar uma relação emocional entre a subjetividade e a moda. Os produtos são cada vez mais expressão de um conceito e de um estilo de vida associado às marcas; a moda tem um efeito terapêutico e ao mesmo tempo em que perde seu aspecto totalitário já que suas tendências e conceitos podem ser apropriadas de forma mais flexível e individualizada. Diante desta evidência, interessa à Oficina Experimental de Moda DASDOIDA, fomentar e dar corpo às proposições de moda presentes desde sempre nas instituições encarregadas da reabilitação psicossocial de pessoas em sofrimento mental.

Desde modo, a Oficina Experimental de Moda DASDOIDA, dedica-se à pesquisa da imagem produzida no entorno da moda nas comunidades do serviço de saúde mental, compondo um dispositivo de nome CAIXA PRETA, inscrito na confluência que medicina, terapia ocupacional, psicologia, enfermagem, psicanálise, loucura e arte; engajado essencialmente na criação e nos desdobramentos da subjetividade. É estratégia de tratamento que visa a manutenção dos benefícios clínicos alcançados e a prevenção de novos episódios psicóticos e de internações; mas também dispositivo psicanalítico inscrito no atendimento público que visa modelar o atendimento a partir do encontro e da escuta. A produção de objetos de moda (customização de camisetas, criação de modelos, proposição e design de telas para silk screen, produção de tecidos a partir de retalhos, etc.) se dá em oficinas semanais abertas para os usuários inscritos no caps ITAPEVA, mas que também se abre às pessoas interessadas na pesquisa da moda e voluntariado. As peças produzidas passam a ser objeto de estratégia de divulgação, realização de performances como desfiles, intervenções de arte digital e filmagens, buscando inovar também na comercialização, através do comércio justo e solidário, a manutenção do projeto. O projeto oferece uma miríade de propostas (tecidos, adereços, tintas, técnicas de produção, capacitação com profissionais da área, etc.) a ser trabalhada, confrontando os participantes a diferentes graus de dificuldade/facilidade na produção dos objetos de moda.

A desrazão, a transgressão, não só confrontam as categorias da norma, como põem em jogo a corporeidade da constituição subjetiva: a obra deArtur Bispo do Rosário, indo da construção dos mantos para encontrar com Deus, aos paneaus bordados com os nomes das pessoas de convívio no hospital, a seriação de objetos, nos remeteu à confecção de peças e modelos originais, bem como a intervenção/customização das peças com vistas à remodelagem do objeto. A oficina, ao mesmo tempo campo de pesquisa terapêutica, é moda e sustenta de espaço de ensino no manejo das intensidades, pois segundo Fedida, a clínica da psicose obriga ao terapeuta poder ser transformado por ela. A atividade se desenvolve em grupos com local e horário regulares (às segundas feiras o encontro se dá em oficina aberta e às 5ª feiras uma oficina de silk screen), mas que também responde a compromissos em horários e locais outros, deslocando toda equipe na realização de desfiles, saraus e feiras.

[Fonte: http://dasdoida.com.br/projeto.htm]

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.