“Nas cenas de João Alves, nascido em Tingui, perto de Taiobeiras, em 6 de junho de 1964, predominam as figuras femininas negras, que parecem incansáveis na faina diária para o sustento da família no mundo rural. Parte significativa dessas peças fala de atividades que já foram varridas pela ação do tempo, na pequena Taiobeiras, norte de Minas Gerais – fronteira com os municípios de Rio Pardo de Minas, Indaiabira do Sul, Salinas, Curral de Dentro, Berizal e São João do Paraíso -, com cerca de 28 mil habitantes, com 800m de altitude, a 646km de Belo Horizonte e a 260km de Vitória da Conquista, no Estado da Bahia.
 
É natural que o visitante se pergunte sobre a origem do nome da cidade: Taiobeiras. É derivado da folha taioba, da família das aráceas (xanthosoma violaceum), que pode ser preparada da mesma maneira que a couve e era bastante abundande na região. A localidade surge, em meados do século 19, como Sítio Bom Jardim, que fora desmembrado da Fazendo Ribeirão, e por lá, um entrocamento de estradas que ligava cidades de Minas Gerais (como Teófilo Otoni, Minas Novas, Araçuaí, Salinas, Montes Claros e Brejo das Almas, atualmente Francisco Sá) a cidades da Bahia (Pedra Azul e André Fernandes, Vitória da Conquista, Mundo Novo e Feira de Santana), passavam boiadeiros e tropeiros levando o gado de Minas para engorda e comercialização na Bahia. O movimento atrai novos habitantes e o comércio prospera na região, formando gradativamente um povoado que cria recursos essenciais de infra-estrutura que estimularam a fixação de habitantes. O povoado é elevado a distrito – Bom Jardim das Taiobeiras – ligado ao município de Rio Pardo de Minas, em 1911, e ainda como distrito, passa a integrar o município de Salinas, em 1923, quando passou a se chamar simplismente Taiobeiras e, por reivindicação da população, é elevado à condição de município em 1954.
Atualmente, a maioria da população é de pequenos e médios agricultores (feijão, mandioca, abóbora, tomate, maracujá) e criadores de gado de corre e leiteiro, que sofrem com os recorrentes períodos de estiagem da região do Vale do Jequitinhonha. A localidade conta com rede de ensino em nível esdatual e municipal e rede de transporte, postos de saúde e um hospital, além estabelecimentos comerciais diversos.
 
Aos sábados, a cidade se enche de gente das localidades vizinhas. Logo de manhãzinha, começam os preparativos para a grande feira, na Praça da Liberdade, contígua ao mercado municipal. Ônibus, pequenos fretes e muitas bicicletas vão chegando aos poucos e logo tomam o espaço. Barracas de frutas, legumes, verduras, ovos, queijos e doces artesanais, farinha de mandioca das casas de farinha das redondezas, lingüiça, fumo, porcos, galinhas, temperos diversos, entre os mais variados artigos expostos para a venda. Na feira, a cidade se encontra, compra, vende, troca, conversa e se diverte. Uma das atrações especiais, nesse dia, é a realização das rifas – “procure a sua caça” – feitas por homens, mulheres e crianças, das galinhas e perus que criam no quintal de casa.
Nesse cenário, foi possível perceber o rarefeito comércio de peças artesanais “utilitárias”, em cerâmica e madeira: da localidade de Bebedouro, perto de Salinas, dona Maria Rosa Virgínia trouxe umas poucas moringas, panelas e manilhas usadas como chaminé de fogão a lenha; dona Aurentina Rodrigues vendia galinhas-cofre modeladas em barro envernizado e o lavrador Augusto Costa Almeida comercializava seus pilões e gamelas em madeira que ele aproveita das demiloções. Na entrevista com João Alves, a feira aparece como pano de fundo de suas história; era para ali que ele, pequeno, levava suas peças para vender.
 
Essa breve observação acerca do tipo de peças artesanais mais “utilitárias” vendidas na feira suscita a inevitável pergunta: por que o artiata mineiro teria escolhido essas figuras negras para narrar uma série de atividades comuns à quase totalidade da população mais pobre das áreas rurais? No trabalho de João Alves em barro cru com papel machê é possível perceber uma espécie de mosaico que se forma quando suas cenas são vistas em conjunto. Várias atividades parecem alinhavar os pequenos acontecimentos do dia-a-dia: hora de cuidar das crianças, de socar o milho no pilão, de passar roupa, de levar a roupa para alvar, vender a galinha e os ovos na feira, entre tantas outras. O que é comum aos trabalhadores pobres aparece para o artista mineiro como cenas do “tempo dos escravos”, mas ao mesmo tempo ele fala que viu tudo isso no “trabalho da roça”.
Portanto, observar as cenas de João Alves significa necessariamente pensar em trabalho, ou melhor, de uma representação que ele faz do trabalho por meio de suas figursa negras. Nessa representação, são evocados certos elementos que já não existem mais nas localidades providas de luz elétrica, como, por exemplo, o ferro a carvãona cena de mulher passando um caminho-de-mesa. Mas, afinal, por que especialmente o ntema trabalho e sua associação exclusivamente com as figuras negras? De onde teria surgido essa preferência do artista mineiro?”

 

[Fonte: Escrito por Guacira Waldeck | Museu de Folclore Edison Cardeiro/CNFCP]

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.