As cores de Cipriano

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por Alex de Campos Moura
[fotos: divulgação]

“A minha arte é uma galinha correndo das garras da fome de um ser humano com a faca na mão.”

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É com essas palavras que Cipriano Souza, nascido em 1970, no Arraial de São Domingos, município de Manoel Vitoriano, Bahia, descreve sua arte. Imagem forte, visceral, que nos aponta, antes de tudo, a arte como urgência e sobrevivência, apelo e preservação. A imagem é primitiva, nos remete aos campos e aos sertões, à vida simples do interior. A imagem é alegórica, nos reenvia à luta pela vida, à carência e à fuga, ao campo de batalha. A imagem é lúdica, a galinha corre e burla seu perseguidor, fazendo da fome ocasião de ironia e paródia. Mas a imagem é, antes de tudo, poética, condensa na figura da galinha em fuga a força de uma dimensão, ao mesmo tempo, real, fictícia e simbólica. A arte é necessária, justamente como resistência e confronto com uma realidade à qual ela não pode deixar de responder e relacionar-se, ainda que para propor alternativas a ela.

É assim, nos parece, que podemos olhar os quadros de Cipriano, nessa espécie de interface em que se encontram o lírico e o real, em que as figuras “concretas” adquirem um tipo de leveza ou de irrealidade, incorporadas por figurações sutis, entretecidas pela composição geral que as resignifica em uma narrativa nova – o que impede supor no quadro uma casualidade fortuita. Há, na obra de Cipriano, uma ordenação própria, uma sintaxe, mas essa permanece entrevista, sugerida, sem a força que a tornaria impositiva.

Vem daí, a meu ver, uma das razões de sua força: a capacidade de elaborar os elementos concretos, típicos e regionais, que nos reenviam imediatamente a uma tradição e a uma história que nos são tão próprias, dentro de um certo lirismo mais amplo, poético, que escapa aos moldes da tradição e reeinventa os elementos de forma nova, singela.

 

Projeto desenvolvido no povoado de São Domingos-KM58, Manoel Vitoriano – BA

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É nas cores que se encontram os elementos principais da pintura de Cipriano. Cores fortes, orgânicas, carregadas de festas de bairro, do sertão em suas figurações mais autênticas, quase infantis. Mas eis que o trabalho do artista reinveste a simplicidade das cores com formas e figuras estilizadas, fazendo-nos lembrar elementos de nosso modernismo, a recusa da perspectiva e da proporção tradicional, compondo figuras que passeiam pela tela, que se avolumam e se ocultam, recusando os parâmetros de um realismo convencional. As cores de Cipriano, ao mesmo tempo que nos remetem a um Brasil “interiorano”, alegre, festivo, nos dispõe diante de uma realidade onírica, algo inventada, algo simbólica, em que ganham relevo a sofisticação da forma e a leveza da figuração.

 

Projeto desenvolvido no Bairro Deoclécio Coelho da Silva (Bairro Novo), em Boa Nova – BA

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Reunido os dois aspectos, sua pintura nos convida a uma redescoberta de nosso próprio regionalismo e de nossa própria história, não de modo fechado ou reprodutivo, mas justamente como possibilidade de reinvenção, como construção de uma narrativa sobre o Brasil que, ao reinventá-lo, o confirma e transforma.

 

TELAS

 

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OFICINAS

 

ATELIÊ MAQUINARIA [Oficina: Cipriano Souza Morro do Querosene - SP, 2014]

 

POVOADO DO SALGADO [Oficina: Cipriano Souza Manoel Vitoriano - BA, 2012]

 

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.