Os Vestígios

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por Alex de Campos Moura

fotografias: Agência Ophelia

Foi no poeta Manoel de Barros que a designer de estampas Clarisse Romeiro encontrou inspiração para a construção de seu mais novo trabalho, a nova coleção desenvolvida pelo Veredas Atelier, intitulada Belas Moscas. Como nos conta a designer, trata-se para ela do esforço de dar vida e forma às sensações e imagens despertadas a partir dos “restos, cantos e infâncias” surgidos através de seu contato com os textos do poeta, buscando criar imagens e processos capazes de reencontrar o insignificante, o vestígio, recuperando os resquícios que passam despercebidos aos olhos do discurso dominante.

Sotaque das Águas | Agência Ophelia

A coleção é composta por três estampas distantes da geometria encontrada nas outras coleções da artista, apresentando traços mais soltos e leves, uma fluidez mais acentuada.

 

O processo, explica Clarisse, consiste em buscar o resíduo do próprio trabalho expressivo, seu avesso, utilizando como matriz os “borrões” deixados no verso ou no papel subsequente ao desenho original, criando uma espécie de “des-estampa”, aquilo que se esconde e se preserva por sob o trabalho direto e objetivo do designer: “A beleza se encontra na incerteza dos rastros de tinta que marcam o verso do desenho original, nos borrões que transpassam involuntariamente para um outro branco de papel. As estampas são feitas de restos”, explica ela.

É essa mesma perspectiva que orienta a apropriação dos materiais utilizados pela coleção. As cadeiras, por exemplo, passam por um processo de decomposição, em que se busca um retorno às suas formas mais “cruas”, mais simples, ganhando o aspecto de ferrugem. É sobretudo no processo de criação que se apoia a proposta da artista, na busca do resíduo que permanece, ao mesmo tempo, lateral e basilar para a composição.

Vem daí a inspiração em Manoel de Barros. O grande poeta que se ocupava das “miudezas”, descobrindo nelas o valor e o infinito. Não se trata, nos mostrou ele com maestria, de olhar para o sólido e o irredutível, mas justamente para aquilo que lhe resiste, para as pequenas coisas, os detalhes, o jardim “maior que o mundo” cuja singularidade resiste às investidas do comum.

Caramujo | Agência Ophelia

Assim como o trabalho de todo artesão que se volta a sua cultura e ao seu tempo, a poesia de Manoel de Barros é a que faz falar as miudezas nossas, o mundo nosso e o silêncio nosso. Assim como o artesão preserva sua cultura, o poeta guarda seu tempo e sua história. Nessa inversão, nessa resistência ao tempo que tudo consome, é recuperação da experiência singular, do silêncio e do autêntico que sua poesia reivindica. Que a poesia permaneça, assim, capaz de inspirar e gerar criação. Que os artistas permaneçam abertos e sensíveis ao seu apelo:

 

Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato e canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

(O apanhador de desperdícios, Manoel de Barros)

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* Alex de Campos Moura é pós-doutorando, doutor e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Além de artigos e resenhas, é autor de dois livros: “Liberdade e Situação em Merleau-Ponty: uma perspectiva ontológica” e “Entre o Ser e Nada: a dissolução ontológica na filosofia de Merleau-Ponty”.

 

Coleção Belas Moscas | Veredas Atelier

 

 

 

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