Bordadeiras do Jardim Conceição

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por Alex de Campos Moura

Fotos: Acervo Associação das Bordadeiras do Jardim Conceição

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   “Então eu vim, eu gosto, eu aprendo. Tenho vontade de aprender cada vez mais. E isso é importante na minha vida. Para mim, mudou muito a minha vida. Eu gosto muito do convívio com as outras bordadeiras. É uma família também… a gente formou outra família. O bordado me faz bem. Antes, eu era uma pessoa e hoje em dia eu sou outra.”

Iara Maria Alves da Silva - Bordadeira

 

 

É assim que a bordadeira Iara Maria Alves da Silva descreve sua experiência no grupo das Bordadeiras, grupo formado atualmente por cerca de 40 mulheres moradoras do bairro Jardim Conceição, cidade de Osasco, Grande São Paulo. O relato dela faz eco ao da maior parte dos membros do grupo. Ao ouvirmos suas histórias, é sempre um mesmo testemunho que salta aos olhos: o reconhecimento do bordado não apenas como uma técnica aprendida, mas principalmente como uma nova possibilidade de organização de suas vidas, de suas relações afetivas, sociais e econômicas.

As bordadeiras Iara, Rozeli e Sônia exibem as suas peças.

 

Assim, por exemplo, Rozeli Candida da Silva nos conta que começou a participar da Fundação Bradesco – instituição que deu início ao grupo – para terminar o ensino fundamental, e que agora, além de monitora do grupo, usa o dinheiro ganho com o bordado para pagar sua faculdade de pedagogia.

 

“E hoje eu sou monitora, que eu nunca pensei em ser, não passava nem pela cabeça, foi uma surpresa. No primeiro curso até me emocionei quando entreguei os certificados. Porque é um passo a mais que a gente conquista. Com a renda do bordado e da ocupação de monitora, na oficina pedagógica, eu pago a minha faculdade de pedagogia. Tenho o apoio da família do meus filhos que me ajudam e também do meu marido, eles me apoiam muito. Eu gosto de tudo na assossição. Não tem uma coisa aqui que posso falar que eu não goste! Gosto de tudo! E quando a gente tem muita dificuldade, tem muita encomenda, a gente sai ligando pedindo ajuda para as outras meninas. Então assim, não costuma ser uma coisa chata, né? Nem cansativa mesmo porque a gente tem a colaboração de todas. 

Rozeli Candida da Silva - Bordadeira e Monitora

 

As histórias se repetem nesse contexto. O bordado figura como uma reinvenção da vida de cada uma delas. A maior parte das mulheres, ao entrar no grupo, não sabia bordar e não tinha nenhuma atividade profissional regular, dedicando-se exclusivamente à casa e à família. A mudança começou com a inauguração da Escola de Educação Básica Fundação Bradesco, em 2004. Oferecendo formação da educação infantil até o ensino médio, a Escola disponibilizou também diversos cursos extracurriculares para adultos. As mulheres então começaram a frequentar as atividades em 2008, formando gradativamente um grupo de excelentes bordadeiras. Ao mesmo tempo, elas receberam outras capacitações, ligadas à autonomia profissional e à gestão empreendedora oferecidas na escola.

Em 2011, teve início um atendimento em oficinas coordenadas pelo designer Renato Imbroisi. O resultado inicial é uma coleção de peças para cozinha e cama chamada Os Jardins da Conceição.

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Em geral, as peças são produzidas a partir de um molde único, ficando a critério de cada bordadeira qual o ponto que ela utilizará. Assim, ao mesmo tempo que respeita os temas da coleção, cada peça é única, garantindo a parcela criativa de cada uma das mulheres envolvidas no trabalho.

Atualmente, o grupo está em fase de estruturação para se definir como cooperativa ou associação, mantendo sua produção regular e com alta qualidade, apta a atender às solicitações de um mercado exigente, coadunando a identidade cultural do artesanato com as constantes inovações do design. As Bordadeiras do Jardim Conceição têm agora uma nova fonte de renda, que é o seu trabalho, e descobriram o prazer único de criar e produzir objetos belíssimos com as próprias mãos. Mais do que uma ferramenta, elas descobriram um novo lugar social e uma outra forma de estabelecer-se em comunidade, respeitando e preservando uma cultura ao mesmo tempo tradicional e capaz de reinventar-se.

 

“Meu nome é Maria Nunes Soares, eu já estou no grupo há 5 anos, desde o começo. Eu comecei fazendo cursos na fundação. Parei um tempo, fiquei em casa, cuidava dos netos em casa. Depois voltei de novo fazendo ponto reto, e bordado até hoje. Depois fui para o ponto livre e estou até hoje bordando, gosto muito de fazer esse serviço. É bom mudar um pouco para não ficar só em casa, fazendo o serviço de casa. Daí muda um pouco. E agente ganha um dinheirinho também. Eu gosto mesmo é de bordar mas eu risco também. O bordado me ensinou a sair de casa, ter amizade com as meninas, a gente tem muita amizade, uma ajuda a outra. Fico feliz quando termina. Quando pegamos um serviço, assim, depois vemos pronto, entregue nas mãos da pessoa. Ver o desenho pronto. Gosto de fazer todos os desenhos. Voltei a estudar na fundação, o telecurso, para terminar o fundamental e médio. A família apoia.” 

Maria Luíza Nunes Soares. - Bordadeira

Entenda o processo de produção:

 

As bordedeiras do Jardim Conceição se organizam para que todas as associadas façam parte do processo de produção em uma ou várias etapas da produção:

1) ENCOMENDA: O grupo recebe as encomendas pelo telefone ou pelo e-mail e, de acordo com o pedido, planeja a execução e o prazo de entrega final. O grupo está preparado para confeccionar almofadas, toalhas, roupas e bolsas em pequena ou grande quantidade.

2) CORTE E COSTURA: Primeiro é preciso preparar os tecidos de acordo com o produto encomendado e as quantidades. A artesã responsável pela corte e costura é a Sônia, que também borda e participa das demais etapas.

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Minha mãe bordava mas eu nunca me interessei em bordar. Quando soube dos cursos eu pensei: “Ah! Vou fazer”! Fiz também o corte e costura aqui na fundação. a minha turma fez o primeiro curso de bordado. Foi a coleção do Renato Imbroisi. Daí eu gostei muito, fiz uma flor, todo mundo adorou minha florzinha, nossa, eu falei “pronto”!  Mais tarde, eu fui escolhida para ser monitora e me emocionei muito. No início dos bordados quem produzia as peças, os cortes e costuras era uma empresa. A fundação comprava dessa empresa, até então eu era bordadeira. Sempre bordava… Aí eu fui analisando todas as peças que chegavam da fábrica. Um dia eu falei para a coordenadora que eu conseguiria fazer aquelas costuras, por que não? A minha coordenadora levou a proposta, eles aceitaram, ela foi comigo comprar todo o material para eu poder fazer os pilotos de todas as peças, e ver se a minha costura era igual a da fábrica. Daí eu fiz todas as peças, que foram para análise e depois aprovadas. Desde aí em diante a gente que produz tudo. No começo era só eu que cortava e costurava agora já tem mais meninas que trabalham comigo, tem a Elaine. A Elaine é bordadeira, monitora, costureira, ela faz tudo, me ajuda. Depois disso o corte ficou todo com a gente, corte e costura, a gente começou a fazer tudo. Comprei uma máquina, minha primeira máquina. Eu me lembro, fiz as cortinas aqui da escola. Comprei industrial porque o tecido tinha de ser grande. Quando recebi o convite para ser monitora, também me emocionei.”

Sônia Maria Leal Bento - Bordadeira, Costureira e Monitora

 

3) RISCO E MESA DE LUZ: Nessa etapa as artesãs passam para o tecido os desenhos criados para essa coleção. Para isso, elas colocam o tecido sobre o “modelo” ma mesa de luz e riscam o tecido fazendo delicados contornos. São árvores, frutos e flores serão, na próxima etapa, preenchidos pelos pontos livres. Os desenhos são padronizados mas cada artesã deixa a sua marca pessoal impressa nas peças.

4) BORDADO: Quando os produtos já estão riscados eles são distribuídos para as artesãs que podem bordar no atelier coletivo ou levar para trabalhar em casa. Os desenhos são preenchidos pelo PONTO LIVRE com diferentes cores de linha. Cada artesã deixa a sua marca ao bordar.

5) LAVAGEM E SECAGEM: As peças bordadas são então reunidas para serem lavadas, engomadas e passadas. Depois desse cuidado elas podem ser embaladas!

6) ENTREGA: As peças passam por um último controle de qualidade, são embaladas e entregues para os clientes.

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Bordadeiras

 

O grupo é grande e não para de crescer:

Aline Terezinha Michelin | Alzira Souza de Oliveira | Ana Lina Lemos de Sousa Moraes | Ana Lucia da Silva de Souza | Analba Silva Braz | Aparecida Barbosa Jesus Silva | Berenice Batista | Cleonice Silva Cabral | Damiana Maria de Souza | Daurismar Bento de Sousa | Eidi Tais de Lima | Elaine Cristina Barranco dos Santos | Erica Goes | Fernanda Leonel | Francisca Neci Rodrigues Machado | Gilsa Marcia B.Guimarães | Giovana Almeida Santos da Silva (em memória) | Glaucia Ribeiro Franco Beserra | Heloiza Maria Lima Silveira | Iara Maria Alves da Silva Barranco | Inalda Silva Braz | Joanita Ferreira dos Santos | Joeleuza Teles de Figueiredo Silva | Josefa da Silva Roseno | Leni Aparecida Brandão | Lislene Duque de Araujo Santos | Luciana de Souza Oliveira | Maria da Conceição Lima Catanhede | Maria das Graças Santos Oliveira | Maria de Jesus Ferreira Vieira | Maria de Lourdes Marques | Maria de Oliveira Melo | Maria de Souza Gonçalves Neves | Maria Dias dos Santos | Maria Luiza Mendes Barbosa | Maria Luiza Nunes Soares | Maria Rosalba de Oliveira | Maria Silene Rosa | Maria Viana da Silva | Marineia Souza de Oliveira Santos | Mileide Paula Soares | Miriã Oliveira | Neide Maria de Santana Alves de Souza | Neuza Donizatti | Patricia Alves Brilhante Medeiros | Patricia Mitico Kawakami | Ronilse Vaz | Laude de Abreu | Rozeli Cândida da Silva | Silmara Silva | Sônia Maria Leal Bento | Sônia Martinez | Sônia Maria Ricardo Rodrigues | Sônia Muniz Giroto  | Tânia Maria Lima Justimiano | Telma Lucia Bonfim | Vanda Coelho Nunes Torres | Veroneide Batista Lima | Viviane Werli Neves

 

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Coleção Jardim Conceição

 

Conheça a coleção completa aqui: http://www.bordadeirasdojardimconceicao.com/#!produtos

Contato:

 

SITE:  http://www.bordadeirasdojardimconceicao.com/

E-mail: bordadeirasjdconceicao@hotmail.com

 

Sônia Maria Leal Bento – Tel.: +55 (11) 97125-8540

Elaine Cristina Barranco dos Santos – Tel.: +55 (11) 96353-6325

Rozeli Cândida da Silva – Tel.: +55 (11) 99984-9929

 

 

 

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.