Plantas têxteis e sua utilização em artesanato*

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Por Renan Novais – Ouvidor da Sutaco 

[Fotos: Pierre Y. Refalo - Acervo Sr. Brasil]

 

Herança dos índios e africanos, a arte do trançado incorporou-se à cultura artesanal paulista.

O artesanato em fibras vegetais (e plantas têxteis), representado pelos trançados e trabalhos de cestaria, constitui-se numa das mais expressivas categorias (ao lado da cerâmica e dos trabalhos em madeira), do artesanato típico paulista, que na sua origem, se destinava a atender fins utilitários e a permitir manifestações de caráter cultural, lúdico e religioso do cotidiano dos habitantes da terra dos Bandeirantes.

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JARRO DE TABOA
artesã: Cleide Toledo

Os objetos característicos desse tipo de artesanato, em sua maioria, de cunho marcadamente utilitário, estão muito relacionados com o caráter nômade das atividades e isso é revelado no valor funcional desses objetos, na caça, na pesca e na agricultura, dentro de uma economia de subsistência. Com as fibras, o homem tece o “cesto”, companheiro inseparável em suas atividades; a “rede”, que sempre o serviu nas horas de repouso; e faz o “rancho”, que serve de abrigo para ele e sua família.
Atualmente, convivendo com a industrialização, a urbanização e suas conseqüências, vamos encontrar focos desse artesanato típico, cujas raízes estão muito identificadas com a tradição histórica paulista, mas que passam por um processo de transformações que pode culminar com sua descaracterização total. Por isso, devemos estar atentos a todos esses problemas e procurar meios de recuperar o que pudermos, desse aspecto importante da cultura material.

 

O artesanato concebido como integrante da cultura material de um povo expressa seus traços e valores étnicos e culturais, pois cada peça é reveladora de condicionantes sociais, econômicos, históricos e ecológicos típicos.

As peças variadas do artesanato em fibras vegetais, cujas origens são advindas das culturas indígena e africana, sofrendo também influências dos outros povoadores das terras paulistas, são o registro criativo e imaginativo das transformações ocasionadas pelos fatores anteriormente identificados. É claro que cada cultura encontra soluções para resolver problemas resultantes das transformações sociais, econômicas e de ajuste ao meio, mas acabam perdendo muitas das suas características.

Tecer, trançar ou entrelaçar fibras vegetais e plantas têxteis, a fim de com isso fazer objetos úteis e belos, parece ser instintivo do homem.

No Brasil, a arte de cestaria é muito conhecida e difundida fazendo-se representar por uma infinidade de objetos, principalmente com fins utilitários. O termo cestaria inclui cestos, caniçadas (tecidos de varas, canas, vime e juncos em superfície de forma plana), esteiras e os trançados decorativos.

O elemento indígena, acostumado a tecer palmas, juncos, tucuns, cipós, bambus e outras fibras, e os africanos que, quando aqui aportaram, já sabiam tecer caniços e raízes, representam as duas principais fontes desse artesanato, cuja modalidade resulta de fatores ecológicos, sofre adaptações conforme condições locais, estilo de vida e por que não dizer, conforme as exigências da freguesia – nesse caso descaracterizando-se.

Quando falamos em artesanato de fibras vegetais devemos esclarecer que a expressão “plantas têxteis” é mais abrangente, pois inclui plantas, que em virtude da abundância, ou das espécies de suas fibras, são utilizadas na confecção de artefatos, tais como: tecidos, vassouras, tapetes, cestos; ou como material para enchimento. Inclui também plantas em que não é necessário separar as fibras dos outros tecidos vegetais – nesses casos os objetos são confeccionados com partes ou até mesmo órgãos completos dessas plantas.

As fibras podem ser classificadas de acordo com a parte do vegetal de onde procedem: fibras de sementes – camadas externas dos envoltórios das sementes; fibras de folhas – localizadas em torno das nervuras, formando uma bainha que serve de sustentáculo ao limbo; fibras de entrecasca – encontradas nas camadas internas entre a casca e o caule de certas plantas; fibras de palmeiras – fibra de procedência variada quanto à parte dos vegetais desse grupo de onde procedem as fibras: do mesocarpo dos frutos ou das folhas e suas bases foliares.

Várias outras plantas, como as gramíneas, os cipós e os juncos, são também utilizadas na confecção de uma infinidade de objetos para uso doméstico, adorno pessoal e decoração.

De acordo com os dados coletados na Sutaco, os municípios de maior representatividade estão na Região do Litoral e são, respectivamente: Cananéia, Caraguatatuba, Guarujá, Iguape, Ilhabela, Itanhaém, Itariri, São Sebastião e Ubatuba.

No interior merecem destaque os municípios de Apiaí, Lins, São Bento do Sapucaí, São José do Barreiro e Silveiras. Na Capital e em alguns municípios da Grande São Paulo vamos encontrar artesãos em número bastante representativo que utilizam o sisal – fibra proveniente do Nordeste do país, sendo que os objetos confeccionados com tal fibra têm características marcadamente urbanas.

No Litoral, no interior, na periferia e até mesmo nos centros urbanos, vamos encontrar artesãos dos mais variados tipos: o caboclo, o caiçara, o migrante, o caipira e, até mesmo, remanescentes das tribos dos Guaranis, que vivem o dilema: identidade étnica x sobrevivência, provocado pelas transformações pelas quais passa a sociedade paulista.

No que diz respeito à matéria-prima utilizada, observou-se que o bambu é uma das plantas que oferece maior versatilidade no uso em artesanato, sendo também a que apresenta registros de utilização, na maioria dos municípios do Estado de São Paulo, onde há ocorrência de artesanato em fibras vegetais. Com ele são feitos cestos, balaios, peneiras, luminárias, fruteiras, bolsas, chapéus, gaiolas, roupeiros, instrumentos musicais, bandejas e outros objetos utilitários e decorativos. A forma de cortá-lo, raspá-lo, desfiá-lo e trançá-lo, varia de acordo com a peça a ser feita – o que exige habilidade, paciência, sensibilidade e imaginação. Cananéia, Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba, no Litoral; e Apiaí, Brotas, Lins, São Bento do Sapucaí e São José do Barreiro, no interior, são os pólos mais importantes de artesanato em bambu.

 

Taboa

 

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Sapo porta-revistas, artesã Cleide Toledo
(Criação Manoel B Neto )

A taboa (typha dominguensis), planta habitual dos brejos (vive em águas paradas e rasas), também é utilizada em muitos dos municípios paulistas. Guarujá, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba, no Litoral; e Guaratinguetá, Ilha Solteira, Lins, Paraibuna e Potim, no interior, são os mais representativos. Na Capital, Cleide Toledo (Studio Palha Brasil – vide endereço no final da matéria), dá continuidade ao trabalho do mestre-artesão Manoel Baptista Neto, falecido em 2006.

Com a taboa são feitos tapetes, capachos, esteiras, bolsas, sacolas, sandálias, redes, chapéus. Faz-se, também, empalhe e revestimento de móveis, figuras zoomorfas, antropomorfas e muitas outras peças.

 

Cipós

 

Os cipós mais utilizados são o imbé, timbopeva e cruz-de-malta. Com eles são feitos cestos, balaios, roupeiros, redes, viveiros, tipitis e objetos de caça e pesca, muito comuns entre os índios e, hoje em dia, entre os caboclos e caiçaras. Os municípios onde é mais significativa a utilização dos cipós são: Cananéia, Eldorado Paulista, Embu, Iguape, Ilhabela, Juquiá, Miracatu, São Sebastião e Ubatuba.

 

Palha de Milho

 

 

A palha de milho – brácteas, folhas ou folheios que recobrem as espigas de milho – tem em Apiaí, Assis, Guaratinguetá, Itapeva, São Bento do Sapucaí e Silveiras, os municípios mais representativos do Estado, onde são produzidas bolsas, sacolas, tapetes, esteiras, cestos, braceletes e outras peças, fruto do trabalho perfeito do artesão no desfiar, torcer, moldar, tingir, trançar e até mesmo fazer figuras, nesse caso específico, de artesãos radicados na Capital.

 

Sisal

 

O sisal tem sua utilização muito difundida na Capital e em municípios da Grande São Paulo, como é o caso de Guarulhos. Os artesãos adquirem a fibra processada industrialmente e a utilizam na produção de objetos como luminárias, cortinas e outros, que têm cunho de artesanato tipicamente urbano.

 

Embira

 

A embira, fibra de entrecasca de várias árvores das matas úmidas, só é utilizada em artesanato nos municípios de São Sebastião e Ubatuba, onde são feitos tapetes e capachos de boa aceitação, principalmente os que eram produzidos pela Sociedade Pró-Educação e Saúde – SPES, de Ubatuba, entidade pioneira nesse tipo de artesanato, hoje desativada. A matéria-prima local era aproveitada para confecção de peças inspiradas em modelos das Ilhas Maiorca (litoral sul da Espanha), e eram “marca registrada” da SPES.

É interessante ressaltar que a produção artesanal está relacionada com a existência da matéria-prima. Na medida em que ela fica escassa, a tendência é diminuir o artesanato autêntico, pois muitas das fibras utilizadas pelos artesãos são substituídas por plásticos e outros produtos sintéticos.

Observa-se, também, que muitas das fibras vegetais utilizadas pelos artesãos estão ameaçadas de extinção, e algumas delas, como é o caso da embira branca, dificilmente são encontradas, e isso é provocado, principalmente, pelo desmatamento e pela especulação imobiliária.

Esse tipo de artesanato, exige que o artesão tenha um conhecimento profundo de cada fibra a ser utilizada. Suas mãos e os poucos instrumentos usados com sensibilidade, paciência e espírito criativo transformam a natureza e disso surgem peças de alta qualidade estética e comercial.

 

SERVIÇO

 

Studio Palha Brasil
Endereço: Rua Equeci, 281, Vila Esperança – São Paulo – SP (Metrô Vila Matilde)

Cleide Toledo
(11) 26851749 / (11) 9 74022894
palhabrasilartes@yahoo.com.br
palhabrasilartes.blogspot.com
REGISTRO IBAMA 1708917

 

FALE COM O AUTOR:

Renan Novais (Ouvidor da Sutaco)
Tel.: 55 (11) 3241-7338/ 7345/ 7332
Fax: 55 (11) 3241-7328 11 9 95329293
E-mai: rnovais@sp.gov.br

 

*Texto Originalmente publicado: “O ARTESANATO DE SÃO PAULO”  IMPRENSA OFICIAL DO ESTADO  1983

 

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.