Saber e Fazer

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por Alex de Campos Moura*

 

“Este é o primeiro processo relativo ao Registro de Patrimônio Imaterial a vir à decisão deste Conselho Consultivo. Trata-se, portanto, de ocasião eminente, revestida de caráter ritual, como devem ser as primeiras ocorrências dos atos humanos socialmente relevantes. Essa eminência é certamente devida ao aspecto mais geral de ampliação do conceito de patrimônio cultural de nosso País – e tudo o que toca a dimensão crucial da identidade nacional deve merecer particular reverência de todos e cada um dos cidadãos.” (Dossiê 3, p. 62)

É desse modo que se inicia o belo trabalho realizado pelo Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sobre o seu primeiro registro de um bem cultural. Trata-se do Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, o chamado Dossiê 3, descrição detalhada da dimensão social, histórica e cultural envolvida na confecção das panelas, bem como de seu processo de reconhecimento legal. Mais ainda, trata-se de um marco na história da cultura e de sua salvaguarda no Brasil, pois ele dá início ao chamado “Livro de Registro dos Saberes” e também ao instrumento legal de reconhecimento e preservação dos bens culturais de natureza imaterial, cuja criação data de 2000.

Foto: fonte IPHAN

Foto: fonte IPHAN

 

Ao longo do cuidadoso trabalho apresentado no Dossiê 3, temos a oportunidade de conhecer a história latente por sob o ofício das paneleiras, ocasião ímpar para explicitar o modo pelo qual o saber imaterial se constrói gradativamente nos fios de uma comunidade, dando a ela sua identidade e sua unidade. O ofício não equivale a uma simples produção, no sentido cotidiano do termo, mas a uma experiência ao mesmo tempo vital e social na qual os agentes encontram seu lugar no grupo, constroem suas relações e dão sentido à singularidade de sua cultura. O ofício das paneleiras é a atividade por meio do qual os sujeitos se instituem como agentes e se articulam em uma comunidade. Não apenas no presente, mas ao longo do tempo, conhecimento adquirido de geração em geração.

Nesse sentido, como o próprio Dossiê afirma, sua relevância não está apenas em relatar, descrever e resguardar esse ofício, mas sobretudo em marcar o reconhecimento formal e legal de um conceito mais amplo de cultura, uma noção alargada de patrimônio cultural, capaz de reconhecer o “saber fazer” em todo seu valor e implicações. Trata-se, pois, de um passo importantíssimo dado pelo Iphan no sentido de resgatar uma espécie de conhecimento que por muito tempo foi desvalorizado e, muitas vezes, explorado. As panelas feitas por cada uma das mulheres apresentadas pelo Dossiê não são simples utensílio domésticos, mercadorias reproduzíveis e descartáveis. Elas são a expressão viva e condensada da história de cada uma delas, da história de sua comunidade e de sua cultura. Elas são um “patrimônio imaterial”, pacientemente fermentado ao longo do tempo, graças ao movimento onde cada agente contribuiu e recebeu contribuição dos demais. As panelas são a história viva daquelas mulheres e de seu grupo, tornada cultura e conhecimento.

Há, portanto, implícita, uma questão central no reconhecimento da validade do saber imaterial: o reconhecimento do caráter vital da cultura. Ela não é um objeto, ela não é um produto posto à parte para apreciação. Ela é a maneira viva e orgânica por meio da qual os agentes estruturam sua experiência, dão sentido a sua história e ao seu tempo, tornando-se autônomos, transformadores e agentes do real.

 

 

* Alex de Campos Moura é pós-doutorando, doutor e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Além de artigos e resenhas, é autor de dois livros: “Liberdade e Situação em Merleau-Ponty: uma perspectiva ontológica” e “Entre o Ser e Nada: a dissolução ontológica na filosofia de Merleau-Ponty”.

 

 

OFÍCIO DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS

 

Nº do Processo: 01450.000672/2002-50
Data de Registro: 20/12/2002

Conheça o Dossê completo das PANELEIRAS DE GOIABEIRAS

Descrição: 

“É o saber que envolve a prática artesanal de fabricação de panelas de barro, atividade econômica culturalmente enraizada na localidade de Goiabeiras, bairro de Vitória, Capital do Estado do Espírito Santo. Produto da cerâmica de origem indígena, o processo de produção das panelas de Goiabeiras conserva todas as características essenciais que a identificam com a prática dos grupos nativos das Américas, antes da chegada de europeus e africanos.

As panelas continuam sendo modeladas manualmente com o auxílio de ferramentas rudimentares, a partir de argila sempre da mesma procedência. Depois de secas ao sol são polidas, queimadas a céu aberto e impermeabilizadas com tintura de tanino. A técnica cerâmica utilizada é reconhecida como legado cultural Tupi-Guarani e Una, com maior número de elementos identificados com os da tradição Una.

O processo de produção das panelas de barro emprega tradicionalmente matérias-primas provenientes do meio natural: a argila é extraída de jazida, denominada barreiro, no Vale do Mulembá, localizado na Ilha de Vitória, que até pouco tempo só era acessado por canoa; a casca de Rhysophora mangle, popularmente denominada mangue vermelho, com que é feita a tintura de tanino, é coletada diretamente do manguezal que margeia a localidade de Goiabeiras. Da mesma forma, dois dos principais instrumentos do ofício – a cuia e a vassourinha de muxinga – são feitos a partir de espécies vegetais encontradas nas proximidades.

A atividade, eminentemente feminina, é tradicionalmente repassada pelas artesãs paneleiras,  às suas filhas, netas, sobrinhas e vizinhas, no convívio doméstico e comunitário. Apesar das transformações urbanas ocorridas ao longo do tempo, a localidade de Goiabeiras, conhecida como Goiabeiras Velha, permanece como um reduto de ocupação antiga, os quintais repartidos com as famílias de filhos e netos, onde saber fazer estas panelas de barro é o principal elemento formador da identidade cultural daquele grupo social.”

 

Entenda o processo:

 

Mais informações
Certidão
Paneleiras de Goiabeiras
Parecer Paneleiras de Goiabeiras

Associação das Paneleiras de Goiabeiras
Rua das Paneleiras, 55, Bairro Goiabeiras Velha
CEP 29075-105 – Vitória/ES
Tel.: (27) 3327.0519
http://www.paneleirasdegoiabeiras.hpgvip.ig.com.br/

© fotos do acervo por Pierre Yves Refalo. Para compra de peças entre em contato direto com os artesãos.